- Onze pessoas foram raptadas e cerca de três mil estão deslocadas.
- A circulação entre Marrupa e Mecula foi restabelecida este sábado.
Por Suizane Rafael, em Lichinga
Lichinga (MOZTIMES) – O ataque de insurgentes apoiados pelo Estado Islâmico em Marangira, na zona tampão da Reserva Especial do Niassa, no distrito de Marrupa, causou uma morte, deixou um rasto de destruição e obrigou milhares de pessoas a deslocarem-se, disse o Secretário de Estado da Província do Niassa, Silva Livone, na noite de sexta-feira.
O ataque ocorrido esta quinta-feira vinha sendo planeado pelos insurgentes há mais de dois meses, desde que iniciaram a deslocação de Cabo Delgado em direcção ao oeste. Apesar de esta movimentação ter sido reportada com antecedência, as Forças de Defesa e Segurança (FDS) não conseguiram impedir o ataque. A extensão do território e a fraca presença das forças de segurança no terreno tornam este tipo de ataque quase inevitável.
Durante o ataque, os insurgentes mataram uma mulher, feriram um membro das Forças de Defesa e Segurança, destruíram completamente o acampamento turístico da Mozambique Wild Adventures (MWA), incendiaram um centro de saúde, um posto policial e uma antena de telefonia móvel e raptaram 11 pessoas, algumas das quais crianças.
Até sábado, pelo menos 2 700 pessoas haviam-se deslocado para o povoado vizinho de Priringilane, a cerca de 20 quilómetros da vila-sede de Marrupa.
O Secretário de Estado da Província do Niassa, Silva Livone, disse que a movimentação dos insurgentes em direcção ao Niassa era monitorizada há três meses, mas estes conseguiram entrar de forma camuflada no distrito de Marrupa e realizar o ataque em Marangira.
No acampamento da MWA, nada escapou à destruição. Quando o ataque ocorreu, encontravam-se no local vários turistas, incluindo três cidadãos norte-americanos, que foram evacuados por via aérea, em coordenação com a Embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) em Maputo, disse Livone.
O Secretário de Estado garantiu ainda que os deslocados estão a receber do Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD) ajuda alimentar e outros tipos de apoio.
A intervenção das Forças de Defesa de Moçambique, estacionadas no Niassa, impediu que os insurgentes causassem mais destruição.
Este sábado, a Polícia da República de Moçambique no Niassa actualizou a informação, através do seu chefe de Relações Públicas, Osvaldo Damião Mahando, que afirmou que a circulação de pessoas e bens entre os distritos de Marrupa e Mecula foi restabelecida. Marangira situa-se a meio da estrada que liga os dois distritos.
Mahando assegurou ainda que, apesar da relativa calma, a situação se mantém tensa em Marrupa, dada a forma de actuação dos insurgentes, que se escondem nas matas antes de realizarem ataques-surpresa.
Quanto aos três cidadãos norte-americanos resgatados, foram retirados do Niassa numa operação coordenada entre o Governo de Moçambique e a Embaixada dos Estados Unidos em Moçambique. Os turistas encontravam-se em Marangira para praticar caça desportiva, uma das actividades turísticas mais procuradas no Niassa.
O chefe de Relações Públicas do Comando Provincial da Polícia no Niassa avançou ainda que os insurgentes levaram consigo bens alimentares, à semelhança do que fizeram em ataques anteriores.
Marangira situa-se 45 quilómetros a norte da vila-sede de Marrupa e cerca de 300 quilómetros a leste da capital provincial, Lichinga.
A localidade faz parte da zona tampão da Reserva Especial do Niassa, onde, em 2021 e 2025, os insurgentes entraram e incendiaram empreendimentos turísticos.
O empreendimento da Mozambique Wild Adventures em Marangira constituía a principal fonte local de emprego no sector privado e foi estabelecido em 2006 pelo treinador português de futebol Carlos Queiroz.
Esta é a terceira vez que os insurgentes que actuam em Cabo Delgado desde 2017 realizam ataques bem-sucedidos na província vizinha do Niassa. Em Novembro de 2021, os insurgentes atacaram o bairro de Luchenguwe, na vila de Mecula, e o empreendimento turístico de Mariri, situado 80 quilómetros a leste da vila.
Em Abril de 2025, os mesmos grupos atacaram o Kambako Safaris e, posteriormente, o Mariri Camp. O primeiro empreendimento situa-se na margem direita do rio Lugenda e o segundo, na margem esquerda, ambos no interior da Reserva Especial do Niassa.
O risco dos insurgentes voltarem a atacar no Niassa, tal como têm feito regularmente em Nampula e nos distritos das regiões central e sul de Cabo Delgado, é elevado. A concentração das Forças de Defesa e Segurança nos distritos do norte de Cabo Delgado, para proteger os projectos de exploração de gás, é um dos factores que aumentam a vulnerabilidade de outras regiões a ataques. (SR)














