Por Alves Manjate[i]
Existe um ditado, segundo o qual “quando a América espirra, o mundo constipa-se”. Trata-se de uma metáfora económica antiga, que ilustra a interdependência do sistema económico global em relação aos Estados Unidos. Actualmente, o ditado mantém-se plenamente relevante, uma vez que os acontecimentos económicos nos Estados Unidos — como recessões, aumentos nas taxas de juro, alterações na política monetária ou guerras comerciais — exercem impactos directos sobre mercados, economias e decisões políticas em todo o mundo. Tal influência resulta da profunda interdependência global, reflectida nos mercados financeiros altamente integrados, cadeias de suprimentos transnacionais, o papel geopolítico dos EUA e, sobretudo, do peso do dólar como principal moeda de comércio internacional e referência para grande parte da dívida externa dos países.
Recentemente, o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou tarifas recíprocas sobre uma vasta gama de produtos importados, numa tentativa, segundo ele, de proteger a sua indústria e reequilibrar o comércio exterior. Na lista de 185 países, Moçambique foi imposto uma tarifa de 16%, medida que pode afectar significativamente as exportações de Moçambique para os EUA, cujos principais produtos exportados incluem pedras preciosas, titânio, grafite, tabaco, alumínio e açúcar. Este aumento das tarifas pode resultar na redução da competitividade destes produtos e na diminuição da sua demanda. Embora o país tenha uma relação comercial com os Estados Unidos relativamente pequena em comparação com outros, o efeito cascata dessas tarifas pode afectar as cadeias de suprimentos e os fluxos financeiros de um país que depende de capital externo para crescer, consolidar a sua indústria energética, melhorar infra-estruturas, criar empregos e aumentar o bem-estar da população.
Com efeito, após o anúncio das tarifas recíprocas, no dia 02 de Abril, os principais mercados de acções sofreram queda, reflectindo a incerteza económica global e o aumento do proteccionismo. Não obstante a pausa de 90 dias nas tarifas, anunciada pelo Presidente norte-americano, uma semana depois, a falta de previsibilidade nas relações comerciais e a incerteza quanto à evolução das tarifas tem potencial para aumentar o risco percebido, desestimulando novos investimentos. Para um país como o nosso, esse ambiente volátil pode prejudicar a confiança e dificultar a formulação de planos de longo prazo, tornando o futuro económico do país ainda mais incerto.
Mais do que isso, a nova postura dos EUA relança um debate crucial sobre a globalização, nos moldes conhecidos. O impacto assistido nos mercados financeiros sinaliza não apenas uma reacção especulativa, mas uma possível reconfiguração estrutural da ordem económica internacional. No livro “On the Principles of Political Economy and Taxation (1817)”, David Ricardo estabeleceu a teoria das vantagens comparativas, que se tornou num dos fundamentos teóricos mais importantes do comércio internacional e, por extensão, da própria lógica que sustentou a globalização moderna. Ricardo argumentava que os países deveriam se especializar na produção de bens em que são relativamente mais eficientes, promovendo trocas mutuamente benéficas. Essa lógica sustentou a globalização por décadas, permitindo que países do Sul Global atraíssem indústrias com base em mão de obra barata e incentivos fiscais.
Porém, com a decisão de Donald Trump de priorizar a produção interna e limitar as importações, os EUA se afastam desse ideal ricardiano, promovendo uma forma de “desglobalização estratégica”. Em outras palavras, os Estados Unidos estão tentando desfazer o próprio sistema comercial que ajudaram a criar — primeiro em 1944, com o início do sistema de Bretton Woods, que estabeleceu a base para a cooperação económica global e, mais tarde, nos anos 1980, quando Ronald Reagan e Margaret Thatcher deram início à ordem liberal, promovendo a desregulamentação e a abertura dos mercados — responsável por torná-los a nação mais rica e poderosa do mundo.
Por outro lado, Charles A. Kupchan, no livro Isolationism: A History of America’s Efforts to Shield Itself from the World (2020), argumenta que o isolacionismo é uma tradição dominante e recorrente na política externa dos EUA, marcada por períodos históricos em que o país evitou compromissos internacionais e priorizou seus interesses internos. A tese de Kupchan ajuda a explicar o actual reposicionamento da política comercial americana, especialmente a postura proteccionista adoptada nos últimos anos, como a guerra comercial com a China e o afastamento de acordos multilaterais. Segundo Kupchan, essas acções reflectem um retorno cíclico ao isolacionismo, agora em versão económica, evidenciando que o nacionalismo económico dos EUA não é uma anomalia, mas parte de um padrão histórico.
Embora as acções comerciais dos EUA tenham um alcance global, a China continua sendo o foco principal, tanto estratégica quanto simbolicamente. No entanto, a julgar pelos acontecimentos recentes, a China não demonstra receio diante da nova postura americana. Analistas acreditam, inclusive, que o país está preparado para enfrentar o cenário actual. O presidente Xi Jinping afirmou que a China não cederá àquilo que chamou de “intimidação unilateral” dos Estados Unidos.
Desde a primeira guerra comercial iniciada por Trump, ainda no seu primeiro mandato, a China tem adoptado medidas estratégicas, como a diversificação de suas relações comerciais — o que reduziu a fatia das exportações destinadas aos EUA de 20% para menos de 15%. Com as novas tarifas americanas podendo ultrapassar 125%, estima-se que as exportações chinesas para os EUA caiam pela metade nos próximos anos, que vai resultar no aumento dos preços dos produtos e gerar um custo muito alto para os consumidores americanos, até que as fábricas se adaptem.
Na verdade, a China encarna os receios mais amplos que impulsionam a actual mudança proteccionista de Trump: perda de domínio económico, erosão do poder industrial e aumento da concorrência de um modelo capitalista estatal. Sobre isso, Immanuel Wallerstein, na sua obra “The Modern World-System”, publicada pela primeira vez em 1974, argumentou que o mundo está estruturado como um sistema capitalista global, dividido entre Centro (países industrializados, dominantes), Periferia (países fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata), e Semiperiferia (em transição entre os dois).
Nesse sistema, o centro busca manter a sua hegemonia económica e política, e quando essa hegemonia é ameaçada (por exemplo, pela ascensão da China ou pela dependência industrial externa), ele tende a reagir com medidas proteccionistas, intervencionismo e conflitos comerciais, como estamos vendo nos EUA. Ou seja, a guerra comercial é, para Wallerstein, uma resposta típica de uma potência que busca manter a sua posição dominante no sistema global, muitas vezes à custa das regras do jogo que ela mesma criou, o que gera instabilidade nos países da periferia (como Moçambique) e da semiperiferia, que dependem do comércio global e do investimento estrangeiro.
Embora a globalização tenha trazido benefícios inegáveis como o aumento do comércio e do acesso à tecnologia, ela também gerou vulnerabilidades estruturais significativas nos países do Sul Global. A abertura económica acelerada resultou na dependência de mercados externos, desindustrialização precoce e maior exposição a choques financeiros e flutuações de preços de commodities. Sem o devido fortalecimento institucional, muitos desses países do Sul Global viram crescer as desigualdades, a precarização do trabalho e a influência de corporações transnacionais, limitando sua soberania económica e comprometendo um desenvolvimento autónomo e sustentável.
Não obstante, a postura de “desglobalização” adoptada pelos EUA abre novas oportunidades para o Sul Global, especialmente por meio de iniciativas que promovem a cooperação entre países em desenvolvimento e alternativas ao actual modelo económico norte-americano. A Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), acordo que visa reduzir tarifas e barreiras comerciais entre países africanos é um exemplo crucial, com potencial de impulsionar a industrialização e a integração económica dentro da África. No entanto, o seu sucesso depende da superação de entraves como infra-estrutura precária, desigualdades económicas, burocracia, baixa diversificação produtiva e fragilidade institucional.
Além disso, parcerias Sul-Sul, como a Iniciativa do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) liderada pelos BRICS, oferecem uma alternativa ao financiamento tradicional e fortalecem a infra-estrutura nos países emergentes. Contudo, o bloco enfrenta desafios internos como rivalidades geopolíticas, desigualdades entre membros e dificuldades de coordenação e governança. Adicionalmente, a Parceria China-África (FOCAC) e a Nova Rota da Seda também podem desempenhar papéis vitais, criando novas conexões comerciais e investindo em infra-estrutura moderna, facilitando o acesso aos mercados globais de maneira mais independente. Apesar dos avanços, estes programas enfrentam críticas quanto à falta de transparência, à crescente dependência da China e à difusão de modelos autoritários de desenvolvimento.
Em conjunto, essas iniciativas reflectem uma busca legítima por alternativas ao sistema económico liderado pelos EUA e por uma maior autonomia do Sul Global. Todavia, seu impacto dependerá da capacidade dos seus proponentes de enfrentar desafios internos profundos e de construir mecanismos cooperativos mais eficazes, inclusivos e resilientes. Sem isso, há o risco de que promessas de transformação estrutural acabem por reproduzir novas formas de dependência ou desigualdade no seio do próprio Sul Global.
Para terminar, uma análise dos discursos da equipa económica de Trump, apontam para uma estratégia de refundação da globalização sob liderança americana, por meio de tarifas e acordos bilaterais. No entanto, essa abordagem esbarra no Dilema de Triffin: a tensão entre manter o dólar como moeda global — exigindo déficits — e reindustrializar os EUA, o que requer superavits.
Trump parece buscar um novo “acordo global” informal, semelhante a um Bretton Woods 2.0, onde os EUA ofereceriam benefícios estratégicos (dentre eles o acesso ao mercado e participação no sistema do dólar) em troca da adesão às suas regras. No entanto, o actual cenário de multipolaridade e desconfiança internacional contrasta em grande medida com o contexto cooperativo de 1944, tornando tal projecto improvável. (AM)
[i] Professor Universitário, Mestre em Política Internacional
















