Por Paul Fauvet, em Addis Abeba
Addis Abeba (MOZTIMES) – O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, elogiou no sábado a União Africana, classificando-a como “uma bandeira do multilateralismo”.
Falando na Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana, Guterres declarou: “Levarei sempre comigo o apoio inabalável e decisivo do Grupo Africano nas Nações Unidas, questão após questão, iniciativa após iniciativa, na luta comum pela justiça e igualdade.”
“A vossa solidariedade não apenas reforçou os nossos esforços, como me tocou profundamente e jamais a esquecerei”, afirmou. “Desde o primeiro dia do meu mandato, forjámos uma parceria entre a ONU e a União Africana assente no respeito, no diálogo constante e na solidariedade inabalável.”
Guterres defendeu que o “reforço do multilateralismo para o século XXI” deve incluir a reforma da composição do Conselho de Segurança da ONU.
“A ausência de assentos permanentes africanos no Conselho de Segurança é indefensável”, sublinhou. “Estamos em 2026, não em 1946. Sempre que decisões sobre África e sobre o mundo estiverem em cima da mesa, África deve estar à mesa.”
Referindo-se às guerras em curso no continente, Guterres afirmou que, no Sudão, “as partes devem comprometer-se com uma cessação imediata das hostilidades e retomar as conversações com vista a um cessar-fogo duradouro e a um processo político abrangente, inclusivo e liderado pelos sudaneses”.
No vizinho Sudão do Sul, “o Comité Ad Hoc de Alto Nível da União Africana constitui uma oportunidade importante para revitalizar o diálogo político e prevenir a retoma do conflito”, afirmou. Já na República Democrática do Congo, “os compromissos devem ser honrados, começando por um cessar-fogo imediato e pelo respeito da integridade territorial da RDC”.
Na Líbia, acrescentou, “todos os actores devem avançar com um processo político liderado pelos líbios, com o apoio da Missão de Apoio das Nações Unidas”.
Em toda a África Ocidental e no Sahel, são necessários esforços coordenados para pôr fim aos ciclos de violência, terrorismo e deslocação forçada, acrescentou.
Guterres disse que a ONU está a “rever as operações de paz para garantir que os mandatos sejam realistas, devidamente sequenciados e bem dotados de recursos, apoiados por estratégias de transição claras”.
Em contraste com a posição do Presidente norte-americano Donald Trump, que tem defendido políticas favoráveis ao aumento das emissões de gases com efeito de estufa, Guterres insistiu na necessidade de acção climática.
“A ciência é inequívoca — o planeta irá ultrapassar o limite de 1,5 graus Celsius”, advertiu. “A nossa tarefa comum é fazer com que essa ultrapassagem seja o mais reduzida, breve e segura possível.”
Sublinhou que os países do G20, responsáveis por cerca de 80 por cento das emissões globais, “devem assegurar reduções significativas já nesta década”.
Guterres afirmou que “África, com 60 por cento do melhor potencial solar do mundo, pode tornar-se uma potência em energia limpa. Contudo, o continente recebe apenas dois por cento do investimento global em energia limpa.”
“Depois de ter contribuído quase nada para a crise, África enfrenta um aquecimento superior à média global”, acrescentou. “A adaptação deve ser uma prioridade. Isso exige que os países desenvolvidos tripliquem o financiamento para adaptação.”
Guterres rejeitou a ideia de que a sua presença na cimeira tivesse carácter de despedida. “Alguns descreveram a minha presença aqui como uma despedida. Não é verdade. Posso garantir que, até ao último momento do meu mandato, África será a prioridade número um da ONU em todas as suas actividades.” (PF)















