– Incursões simultâneas ocorreram igualmente em aldeias de Macomia, Muidumbe e Ancuabe, com novos casos de decapitação
– Presença das Forças de Defesa e Segurança e das tropas do Ruanda incapaz de travar expansão dos ataques
Por MOZTIMES
Maputo (MOZTIMES) – Insurgentes associados ao Estado Islâmico (EI) realizaram, na quinta-feira (24), um dos ataques mais ousados desde 2024 em Cabo Delgado, ocupando temporariamente o posto administrativo de Chiúre Velho e içando a bandeira do EI no posto policial local.
O ataque teve início por volta das 11 horas, com a invasão do pátio do posto administrativo por militantes islamistas, que incendiaram infraestruturas públicas, incluindo uma escola, uma unidade sanitária e o próprio posto policial. Em vídeo divulgado no sábado (26) pela agência de propaganda do EI, AMAQ, é possível ver um grupo de cerca de 10 insurgentes a invadir o posto policial, incendiar uma viatura e, em seguida, três deles a exibir a bandeira do EI à entrada da instalação.
O ataque a Chiúre Velho é considerado o mais ousado desde Maio de 2024, quando o mesmo grupo atacou a vila-sede do distrito de Macomia, saqueando bens de organizações não-governamentais e raptando trabalhadores humanitários, para posterior pedido de resgate. Chiúre Velho situa-se no extremo sul da província de Cabo Delgado, no limite com o distrito de Eráti, província de Nampula.
O percurso dos insurgentes desde o norte até ao sul deu-se ao longo da semana, com ataques sucessivos em aldeias dos distritos de Macomia e Ancuabe até alcançarem Chiúre. O grupo não enfrentou resistência significativa nem das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique, nem das tropas do Ruanda, destacadas na região, inclusive no distrito de Ancuabe.
Uma semana de incursões e o regresso das decapitações
Na semana que culminou com o ataque a Chiúre Velho, os insurgentes realizaram diversas incursões na região centro-sul de Cabo Delgado, incluindo a decapitação de cinco pessoas na manhã de terça-feira (22), na zona de produção ao longo do rio Muaguide, na aldeia de Intutupue, distrito de Ancuabe.
Segundo relatos locais, as vítimas foram surpreendidas pelo grupo armado enquanto produziam bebida alcoólica caseira, conhecida como nipa, prática considerada pecado pelos insurgentes islamistas.
Os corpos das vítimas foram encontrados por residentes que se deslocaram ao local para comprar a bebida e depararam-se com corpos mutilados e cabeças decapitadas. Um dos moradores que participou do enterro em vala comum referiu que “eles estavam há quatro dias a produzir nipa e já estavam na fase final, prestes a levar o produto para a aldeia”.
Os corpos foram enterrados na quarta-feira (23), no mesmo local da produção. No dia seguinte, a agência de propaganda do EI, Al-Naba, publicou imagens do momento da decapitação, descrevendo as vítimas como “cinco infiéis cristãos capturados”.
Na madrugada de quinta-feira (24), pelas 4 horas, uma força conjunta das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) e da milícia Força Local travou uma tentativa de invasão à aldeia de Chitunda, no distrito de Muidumbe. Segundo fontes locais, as forças governamentais prepararam-se após o ataque à aldeia Magaia no dia anterior.
“Quando ouvimos ontem que a aldeia Magaia estava a arder, todos ficámos em alerta. À noite, os membros da Força Local avisaram casa a casa que ninguém deveria ir à machamba no dia seguinte, porque haveria trabalho a fazer. E hoje, logo às 4 horas, começámos a ouvir o som de armas pesadas”, contou um residente de Chitunda.
No entanto, na região sul, onde há fraca presença da Força Local, os insurgentes realizaram ataques sem grande oposição. No sábado (26), o mesmo grupo que atacou Chiúre Velho voltou a agir, desta vez nas aldeias de Ntonhane e Maririni, ainda no distrito de Chiúre. Em Ntonhane, um civil foi decapitado por estar embriagado, o que, segundo os insurgentes islamistas, viola a sharia (lei islâmica).
Os ataques provocaram deslocações internas em massa, com milhares de habitantes a abandonar Chiúre Velho e comunidades vizinhas. O governo destacou militares e milícias locais para conter os ataques, mas Chiúre Velho continua praticamente abandonado. Moto-taxistas e civis estão impedidos de circular na estrada que liga Chiúre Velho à vila-sede do distrito.
Ainda no sábado (26), insurgentes invadiram a aldeia de Cobre, no posto administrativo de Quiterajo, distrito de Macomia. Um engenho explosivo improvisado atingiu uma viatura militar entre as aldeias de Nakutuco e Nambija, na estrada que dá acesso ao posto de Mucojo. Não há registo de vítimas mortais.
Apesar das operações conjuntas das forças governamentais e do Ruanda, os ataques multiplicam-se por toda a província, num momento em que se aguarda o anúncio da TotalEnergies sobre o levantamento da force majeure e a retoma do projecto de exploração de gás natural, avaliado em mais de 20 mil milhões de dólares, no distrito de Palma, norte de Cabo Delgado. (MT)
















