- Secretário-Geral do PODEMOS denuncia assassinato de 100 Membros e simpatizantes do partido dois meses depois
Por Ricardo Dias
Maputo (MOZ TIMES) – No sábado passado, Sebastião Mussanhane, secretário-geral e chefe da bancada parlamentar do PODEMOS, denunciou o assassinato de 106 membros e simpatizantes do seu partido, no contexto da crise pós-eleitoral em Moçambique. A denúncia veio a público cerca de dois meses depois das execuções terem iniciado. O sociólogo João Feijó entende que a demora do PODEMOS em denunciar a perseguição e assassinatos deve-se ao facto de as vítimas não serem necessariamente os membros do partido, mas sim os apoiantes de Venâncio Mondlane.
Mussanhane descreveu os assassinatos como um movimento de tentativa de silenciar e eliminar todos aqueles que são identificados como líderes das manifestações que decorrem no país desde 9 de Outubro.
“São execuções que nos tiram o sono porque trata-se de um fenómeno selectivo e as pessoas que estão a ser executadas são devidamente seleccionadas”, afirmou Mussanhane. “Alguns são encontrados nas suas actividades, outras no lazer e há quem é sequestrado”, acrescentou falando em conferência de imprensa.
O assassinato de membros da oposição é uma prática recorrente no contexto dos conflitos pós-eleitorais em Moçambique. No passado, as vítimas de assassinatos eram membros e simpatizantes do partido Renamo, que era o maior partido da oposição.
Os primeiros membros notáveis do PODEMOS a serem assassinados no contexto da crise pós-eleitoral foram Elvino Dias e Paulo Guambe, advogado de Venâncio Mondlane e mandatário nacional do PODEMOS, respectivamente. Desde então os assassinatos nunca pararam, embora tenham sido pouco reportados.
O MOZTIMES reportou pelo menos oito assassinatos a tiro, ocorridos até ao início de Janeiro, nas províncias de Zambézia, Nampula e Cabo Delgado. No entanto, o PODEMOS não denunciou com a devida celeridade o assassinato dos seus membros e simpatizantes.
O sociólogo João Feijó entende que a liderança do PODEMOS manteve-se em silêncio durante muito tempo sem denunciar os assassinatos pois os que estão a ser perseguidos e assassinados não são necessariamente membros do PODEMOS, mas sim apoiantes de Venâncio Mondlane.
“São apoiantes do Venâncio que vieram da RENAMO, ou outro sítio, mas que entraram na caravana emprestada do PODEMOS”, disse Feijó, referindo-se aos líderes das manifestações que estão a ser perseguidos e assassinados. “Estão a fazer aquilo pelo Venâncio. Usam o nome do PODEMOS pois é o partido que se teve de arranjar para o Venâncio poder concorrer”, explicou ao MOZTIMES o sociólogo, que é um dos mais respeitados cientistas sociais em Moçambique.
Feijó classifica os assassinatos de apoiantes de Mondlane como “terrorismo de Estado” e explica: “De acordo com as minhas fontes, em Montepuez houve uma reunião, entre 27 e 28 de Dezembro, da Associação dos Combatentes da Luta de Libertação Nacional (ACLLN) com o pessoal da Força Local (milícia que combate o terrorismo com apoio do Estado), no pico das manifestações. A instrução que a ACLLIN deu à Força Local é que dispare directamente par os manifestantes e não mais para o ar”, contou o pesquisador.
Na noite de sexta-feira, 03 de Janeiro, uma semana após a alegada reunião da ACLLN, Abdul Lawia, chefe distrital de mobilização do PODEMOS no Distrito de Montepuez, foi morto a tiro por indivíduos que, segundo testemunhas, vestiam uniformes da milícia pró-governamental, Força Local.
“Então, há ali uma milícia controlada por um partido político (FRELIMO) com armas, balas e subsídios fornecidos pelo Estado que está a assassinar indivíduos por motivações políticas. Portanto, um partido político (Frelimo) tem uma milícia armada para eliminar a oposição. Isto é uma coisa tenebrosa”, finalizou Feijó. (RD).















