Por MOZTIMES
Maputo (MOZTIMES) – Em carta pastoral emitida nesta quarta-feira (13), a Conferência Episcopal de Moçambique elevou o tom e exigiu ao Governo que “tome uma decisão corajosa para pôr fim imediato à intolerância religiosa, que se manifesta sob a forma de ódio contra os cristãos”.
A carta foi emitida no contexto da actual incursão de insurgentes jihadistas pelo sul de Cabo Delgado, onde civis estão a ser mortos e igrejas incendiadas.
Num dos ataques mais recentes, no distrito de Ancuabe, os insurgentes queimaram um edifício histórico da Igreja Católica, vandalizaram o sacrário e espalharam hóstias pelo chão, num acto considerado uma profanação da fé católica.
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A Conferência Episcopal, órgão dirigente da Igreja Católica em Moçambique, reagiu à situação alertando que esta pode “criar um precedente para o advento de outras formas perigosas de radicalismo”.
A carta dos bispos católicos de Moçambique é assinada pelo Arcebispo de Nampula, Dom Inácio Saure, na qualidade de Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique. Nampula é uma das províncias afectadas pelos ataques insurgentes. Há poucos anos, uma freira italiana, a irmã Maria De Coppi, foi assassinada por insurgentes jihadistas no distrito de Eráti, naquela província.
A Igreja Católica, a maior congregação religiosa em Moçambique em número de fiéis, tem mantido uma postura de tolerância religiosa, mesmo perante os ataques de insurgentes jihadistas contra comunidades cristãs e igrejas.
Na carta emitida esta semana, os bispos católicos referem-se à “instrumentalização da religião para justificar a violência” e dirigem-se directamente ao Governo, exigindo que ponha fim à violência.
“Lembramos que é dever fundamental do Governo garantir a dignidade humana, a segurança e o bem-estar de todos, protegendo a vida e o património nacional, aspectos que estão a ser gravemente postos em causa em Cabo Delgado”, lê-se na carta.
Os mais recentes ataques no sul de Cabo Delgado provocaram pelo menos 12 mil deslocados internos, forçados a abandonar as suas residências no distrito de Ancuabe entre os dias 1 e 10 de Maio, segundo dados divulgados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM). A maioria dos deslocados afectados são crianças, que representam 49% do total dos deslocados.
“O nosso olhar e compaixão dirigem-se particularmente às famílias deslocadas, traumatizadas e privadas de um futuro. O desespero, o desânimo, o sofrimento, o ódio e a morte nunca têm a última palavra. A última palavra pertence sempre à esperança, à reconciliação e à vida”, prosseguem os bispos.
A região sul de Cabo Delgado é habitada maioritariamente por populações do grupo étnico Makuwa, na sua maioria cristãs, enquanto as zonas costeiras são predominantemente habitadas por populações Mwani, maioritariamente muçulmanas.
Embora também actuem nas zonas costeiras, os insurgentes jihadistas têm-se tornado cada vez mais violentos contra comunidades cristãs, queimando aldeias inteiras e destruindo igrejas. A organização terrorista Estado Islâmico afirma que os ataques são dirigidos contra cristãos e os seus bens.
“Reafirmamos a nossa proximidade, apoio espiritual e solidariedade humana e material para com todas as vítimas da violência em Cabo Delgado, independentemente da sua religião, etnia ou pertença social”, refere o comunicado dos bispos católicos, evitando dar ênfase à dimensão étnica ou religiosa da guerra.
Nesta quarta-feira, os insurgentes atacaram a aldeia de Nanivichi e incendiando dezenas de casas. A aldeia localiza-se a cerca de 30 quilómetros da sede do posto administrativo de Katapua e a cerca de 60 quilómetros da sede distrital de Chiúre. (MT)
















