Período abrangido: 1 a 30 de Novembro de 2024
Resumo
Maputo (MOZTIMES) – Este relatório apresenta e analisa a evolução da ameaça terrorista em Cabo Delgado durante o mês de Novembro de 2024.
Durante este período, a ameaça do terrorismo em Cabo Delgado continuou a representar um desafio crítico para os civis, as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique (FDS) e os seus parceiros ruandeses. Este mês foi marcado pela continuidade de táticas terroristas dirigidas a veículos civis e militares. Os principais incidentes incluíram ataques, raptos e decapitações, destacando desafios logísticos e operacionais persistentes.
O tema central deste mês é o aumento das deserções em massa e os desafios logísticos nas Forças Armadas de Moçambique, com uma análise das causas e implicações das deserções de soldados das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), nas frentes de combate de Mucojo e Quiterajo, no distrito de Macomia, no final de Outubro. Os desertores relataram vários problemas logísticos e operacionais.
Este relatório analisa os incidentes e avalia as suas implicações para as operações de segurança e a estabilidade na região.
Incidentes-chave e Avaliações
04 de Novembro de 2024
Incidente: Insurgentes decapitaram duas pessoas, após um ataque à aldeia Mandela, no distrito de Muidumbe. Uma tentativa subsequente de atacar Mingalewa foi repelida. Avaliação: As decapitações servem para instilar medo na população civil e dissuadir a colaboração com as forças governamentais.
05-06 de Novembro de 2024
Incidente: Cinco indivíduos foram raptados e torturados na aldeia 5º Congresso, distrito de Nangade. Houve um confronto com as FADM, sem registo de baixas em ambos os lados. Os insurgentes afirmaram ter causado a morte de dois soldados ruandeses, numa emboscada separada entre as aldeias de Cobre e Natoga. Avaliação: Os raptos podem ser usados pelos insurgentes para gerar receitas através de resgates ou para recrutamento forçado. Esta tática reflecte a dificuldade das forças de segurança em prevenir tais operações.
07 de Novembro de 2024
Incidente: Um grupo de 15 terroristas atacou a aldeia Minhanha, raptando três raparigas, saqueando mantimentos e roubando um tractor que foi, posteriormente, abandonado, após transportar os bens roubados. Lenhadores locais foram brevemente detidos e posteriormente libertados. Ocorreu, ainda, um homicídio na aldeia Mapate. Avaliação: A localização estratégica de Minhanha, entre os distritos de Macomia, Muidumbe e Meluco, torna-a um reduto persistente de terroristas. As densas florestas dificultam as operações de reconhecimento mecanizado e aéreo.
08-10 de Novembro de 2024
Incidentes:
- Confrontos entre 20 terroristas e forças ruandesas, perto de Kupri e Namaniko, resultaram na morte de um soldado ruandês.
- Terroristas saquearam mantimentos na aldeia Nabadje (distrito de Mocímboa da Praia).
- Emboscadas na aldeia Gaza (distrito de Macomia), e entre Cobre e Natoga, causaram a morte de seis soldados das FADM e vários feridos.
- Decapitações e incêndios de casas ocorreram em Mandela, (distrito de Muidumbe), e Mbau (distrito de Mocímboa da Praia).
- Os saques continuaram em Chicowa (distrito de Meluco) e Chicomo (distrito de Macomia). Avaliação: A natureza coordenada e variada destes ataques sugere que os insurgentes estão a aproveitar o clima de instabilidade pós-eleitoral, para intensificar as suas operações e reabastecer suprimentos logísticos.
12-13 de Novembro de 2024
Incidentes:
- Terroristas incendiaram oito residências em Mbau, (distrito de Mocímboa da Praia).
- Ataques contra milícias locais (Namparamas), em Minhanha, resultaram em incêndios, roubo de uma motorizada e saque.
- Confrontos com forças ruandesas resultaram na morte de dois soldados ruandeses. Avaliação: A vulnerabilidade da milícia Namparama sublinha a necessidade de melhores estratégias de defesa local e aumento da credibilidade das forças governamentais junto das comunidades.
16-18 de Novembro de 2024
Incidente: Dezoito milicianos Namparama foram brutalmente decapitados em Nunua e Nakwali (distrito de Ancuabe). Três igrejas e dez residências foram incendiadas, e três motorizadas roubadas. O ataque ocorreu após a recusa da milícia em aceitar proteção das FADM, alegando autossuficiência. Avaliação: O massacre destaca a inadequacidade das iniciativas de autodefesa e a necessidade crítica de reconstruir a confiança entre as comunidades locais e as forças governamentais.
Observações-chave
Tendências Operacionais:
- As atividades terroristas mantêm-se concentradas ao longo da faixa costeira de Macomia e no distrito de Nangade.
- Os insurgentes exploram terrenos densamente florestados, para ocultar-se e estabelecer linhas de abastecimento logístico, dificultando as operações militares conjuntas.
Mudanças Estratégicas:
- O aumento de saques indica desafios logísticos, nos esconderijos terroristas.
- Uma combinação de intimidação e aproximação sugere tentativas de ganhar apoio civil.
Eficácia Militar:
- As operações conjuntas mitigaram algumas ameaças, mas continuam insuficientes para eliminar os redutos de insurgentes.
- Persistem lacunas táticas, particularmente na detecção de IEDs e mobilidade das forças.
Análise: Desertões em Massa e Desafios Logísticos nas Forças Armadas de Moçambique
Um número significativo de soldados das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), estimado entre 100 e 150 efetivos, abandonaram as suas posições nos frentes de combate de Mucojo e Quiterajo, no distrito de Macomia, Província de Cabo Delgado, no final de Outubro. Os desertores relataram diversas queixas logísticas e operacionais. Entre os principais problemas, encontram-se a grave falta de fornecimento adequado de alimentos e uniformes, além do uso de armamento ultrapassado, que tem comprometido a eficácia no combate. Adicionalmente, as tropas permanecem nos frentes de batalha por períodos prolongados — alguns superiores a dois anos — sem rotação ou substituição. Este destacamento prolongado é atribuído à falta de novos programas de formação e recrutamento de infantaria, nos últimos anos, agravando, ainda mais, os recursos limitados das forças armadas.
A escassez crónica de recursos tem sido um desafio persistente nos últimos dois anos. Estas carências têm perturbado as actividades militares rotineiras, incluindo a formação nas escolas militares, contribuindo, significativamente, para o baixo moral entre as tropas envolvidas em operações antiterrorismo. Além disso, a dívida substancial do Ministério da Defesa com fornecedores tem agravado a situação, com os fornecedores a recusarem novas entregas até que os pagamentos em atraso sejam regularizados.
A falta de transparência financeira e o elevado nível de sigilo nos processos de contratação criaram um ambiente propício à corrupção, minando os objetivos operacionais em Cabo Delgado.
Em agosto de 2024, o Gabinete Central de Combate à Corrupção (GCCC) revelou três processos criminais envolvendo cinco altos funcionários do Ministério da Defesa. Estes funcionários foram acusados de desviar 52.309.222,02 meticais (aproximadamente 816.000 USD). Os fundos foram, alegadamente, utilizados em operações financeiras de várias empresas contratadas, sob o pretexto de urgência e contingência militar, mas sem respeitar os regulamentos de contratação pública. As unidades produtivas e económicas do Ministério da Defesa, como os Serviços Cívicos de Moçambique e a Monte Binga, também não conseguiram atenuar os desafios logísticos enfrentados pelas forças armadas, em grande parte devido a ineficiências e falta de planeamento estratégico.
As deserções contínuas reflectem uma crise mais ampla dentro das forças armadas, que continuará por resolver enquanto a corrupção persistir e questões básicas como a rotação de tropas, fornecimento adequado de alimentos e pagamento atempado de salários forem negligenciadas. As unidades produtivas e comerciais do Ministério necessitam de projectos credíveis e operacionais para alcançar a autossuficiência e reduzir a dependência do orçamento estatal.
São urgentemente necessárias reformas para simplificar os processos de contratação, resolver as insuficiências logísticas e reconstruir a confiança nas fileiras. Priorizar o bem-estar das tropas na linha da frente é essencial, para manter o moral e garantir a eficácia operacional. Sem essas mudanças, os desafios logísticos e a corrupção no Ministério da Defesa continuarão a comprometer a prontidão operacional das FADM e a pôr em risco os objectivos mais amplos de contraterrorismo de Moçambique, em Cabo Delgado.
Conclusão
O relatório de Novembro de 2024 destaca a ameaça persistente representada pelos insurgentes em Cabo Delgado. Apesar das operações militares conjuntas, os grupos terroristas continuam a explorar as fraquezas sistémicas e o descontentamento, para sustentar as suas actividades. É necessária uma acção urgente para enfrentar os desafios logísticos, reconstruir a confiança com as comunidades locais e melhorar as capacidades operacionais para mitigar a ameaça em evolução. (LR/MS/BN)















