- Ministro da Defesa avisa que há actos preparatórios para se tomar o poder por meios inconstitucionais e as Forças de Defesa e Segurança irão defender a soberania
- Líder da oposição reafirma convocação de marcha sobre a Capital Maputo, para a próxima quinta-feira, enquanto a comunidade internacional apela pelo respeito à vida
Por Noémia Mendes
Maputo (MOZTIMES) – O Governo de Moçambique vai destacar militares para conter a escalada da violência pós-eleitoral nas ruas, disse o ministro da Defesa Nacional, Cristóvão Chume, a jornalistas esta terça-feira, na capital Maputo.
As manifestações populares contra os resultados das eleições foram convocadas pelo candidato presidencial da oposição, Venâncio Mondlane, que alega ter havido fraude que beneficiou o candidato do partido no poder, Frelimo. As manifestações era para serem pacíficas, mas degeneraram em violência, provocada pela resposta policial, que já causou dezenas de mortes.
A maioria das vítimas mortais ‘e constituída por cidadãos manifestantes atingidos por balas disparadas pela Polícia. Mas, há também casos de crianças baleadas pela Polícia e de pelo menos um agente da Polícia morto à pedrada pela população no município da Matola, arredores da cidade de Maputo. O ministro da Defesa confirmou o assassinato do agente da Polícia pela população.
Chume disse a jornalistas que neste momento os militares estão destacados para as ruas para ajudar a Polícia a manter a ordem e estão a prestar trabalho cívico de assistência aos feridos e limpeza das ruas. Entretanto destacou que “se o escalar da violência continuar, as forças armadas terão de proteger os interesses do Estado”.
“As Forças de Defesa e Segurança têm a missão e o mandato de proteger a nossa soberania e a segurança do país. Vão agir contra qualquer acto que atente contra a integridade territorial”, afirmou Chume, denunciando que estão em curso actos preparatórios para se alterar o poder político por meios não constitucionais.
O ministro da Defesa afirmou ainda que neste momento não há nenhumas forças estrangeiras a ajudar Moçambique a conter as revoltas populares. Referiu especificamente que as forças do Ruanda destacadas para combater o terrorismo na província setentrional de Cabo Delgado, rica em gás natural, não foram destacadas para Maputo para conter os manifestantes.
Há muitos rumores, sobretudo nas redes sociais, de que as forças do Ruanda tenham sido destacadas para Maputo para combater os manifestantes.
Chume falou da necessidade de diálogo entre os partidos políticos para resolver o conflito pois “as manifestações violentas estão a semear ódio entre irmãos, a destruir as infraestruturas e mostram o quão estamos divididos”.
No entanto, na manhã desta terça-feira, o Presidente Nyusi referiu, durante um encontro com funcionários do sector de Justiça, que não há condições para diálogo pois “para haver diálogo é necessário criar uma confiança, não se vai dialogar com uma pessoa sem confiança”. O Presidente afirmou que é preciso esperar pelo Conselho Constitucional para decidir sobre os resultados eleitorais.
A lei não estabelece prazo para o Conselho Constitucional decidir sobre os resultados eleitorais, mas a prática é que a decisão é tomada entre 45 dias a dois meses após a votação, o que remete para finais de Novembro e início de Dezembro.
Pouco depois de Chume ter falado, o candidato presidencial da oposição, Venâncio Mondlane, voltou a discursar para dezenas de milhares de seguires no Facebook, a partir do seu esconderijo, reafirmando que na quinta-feira, milhões de pessoas devem marchar sobre Maputo para tomarem o poder.
Mondlane disse que neste momento há pelo menos um milhão de pessoas que chegaram a capital, Maputo, idos de outras províncias para marchar sobre Maputo. Apelou aos militares e polícias para não atirarem contra o povo. Entretanto alerto que se o fizerem serão esmagados pelos manifestantes.
Da exigência inicial de marchar contra a fraude eleitoral, agora Mondlane diz que a marcha é contra a corrupção, crime organizado, pobreza e desemprego, um discurso que encontra eco nos jovens que são a grande maioria da população do país.
Maputo, o epicentro das manifestações, continua paralisada desde sexta-feira da semana passada, com serviços públicos e privados a funcionar de forma muito restrita. Na noite desta terça-feira, residentes dos bairros urbanos, os menos assolados pelas manifestações, começaram uma nova forma de protesto batendo em panelas a partir das varandas dos seus apartamentos, o que cria uma grande onda de barulho na cidade.
A situação parece estar fora de controlo e teme-se que possa haver banho de sangue na quinta-feira, caso a população decida avançar com a marcha sobre Maputo e se as forças de defesa e segurança responderem com violência.
Na segunda-feira, a ministra dos Negócios Estrangeiras, Verónica Macamo, apelou à comunidade internacional para ajudar a conter as manifestações populares em Moçambique. “Pedimos aos nossos parceiros de cooperação, como amigos de Moçambique e dos moçambicanos, para nos ajudar no restabelecimento da calma, serenidade e estabilidade”, disse Macamo durante um encontro com diplomatas acreditados em Maputo.
Em declaração conjunta emitida nesta terça-feira, as embaixadas do Canadá, Noruega, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos da América apelaram a todos os envolvidos para que demonstrem contenção, respeitando o Estado de Direito e a vida humana. (NM)















