- O General Vincent Nyakarundi, Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa do Ruanda, que visitou Cabo Delgado na semana passada, é também alvo de sanções
- Ainda não está claro que implicações as sanções terão para o destacamento das forças ruandesas que protegem projectos de gás em Cabo Delgado
Por MOZTIMES
Maputo (MOZTIMES) – O Governo dos Estados Unidos impôs sanções contra as Forças de Defesa do Ruanda (RDF) e quatro altos responsáveis ruandeses nominalmente identificados.
Um comunicado divulgado na segunda-feira pelo porta-voz principal do Departamento de Estado, Thomas Pigott, refere que as sanções são uma reacção ao “apoio operacional directo das RDF ao Movimento 23 de Março (M23) e seus afiliados no leste da República Democrática do Congo (RDC)”.
Em Dezembro de 2025, Trump presidiu ao que designou por “Acordos de Washington para a Paz e Prosperidade”, assinados pelo Presidente da RDC, Félix Tshisekedi, e pelo Presidente do Ruanda, Paul Kagame.
Os rebeldes do M23 são apontados como apoiados pelo Governo ruandês, embora o Ruanda tenha negado repetidamente essa acusação.
O mais recente avanço territorial do M23 foi a tomada da cidade de Uvira, que Pigott descreveu como “uma clara violação dos Acordos de Washington”.
O comunicado acusa o M23 de “horríveis abusos de direitos humanos, incluindo execuções sumárias e violência contra civis, incluindo mulheres e crianças”, refere. “O apoio contínuo das RDF e da sua liderança sénior permitiu ao M23 capturar território soberano da RDC e continuar a cometer estes graves abusos”, acrescenta.
A nota acrescenta que Trump está preparado para usar “todas as ferramentas disponíveis” para forçar o Ruanda e a RDC a respeitarem os Acordos de Washington.
Um comunicado do Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, declarou: “Esperamos a retirada imediata (da RDC) das tropas, armas e equipamentos das Forças de Defesa do Ruanda.”
As sanções dos EUA são impostas pelo Gabinete de Controlo de Activos Estrangeiros (OFAC) e, normalmente, assumem a forma de congelamento de activos e restrições comerciais. Assim, quaisquer activos detidos pelas RDF nos Estados Unidos poderão ser apreendidos.
Esta decisão do Governo de Trump afecta Moçambique, pois o Ruanda é o principal aliado do país no combate aos insurgentes apoiados pelo Estado Islâmico na província de Cabo Delgado.
Empresas norte-americanas são investidoras-chave na indústria de gás natural de Moçambique. O EximBank dos EUA está a financiar o projecto Mozambique LNG, operado pela empresa francesa TotalEnergies, no valor de 4,7 mil milhões de dólares.
Um segundo projecto de gás, Rovuma LNG, é operado pela gigante norte-americana do sector petrolífero e de gás, a ExxonMobil. Contudo, a ExxonMobil ainda não tomou a Decisão Final de Investimento, a qual poderá depender da melhoria da segurança em Cabo Delgado, que, por sua vez, poderá depender da continuidade da presença militar ruandesa.
Entre os quatro oficiais ruandeses visados pelo decreto de sanções, encontra-se o Chefe do Estado-Maior das RDF, o General Vincent Nyakarundi.
Nyakarundi visitou as tropas ruandesas em Cabo Delgado a 26 de Fevereiro. Esteve igualmente na capital provincial, Pemba, onde se reuniu com o Comandante do Exército moçambicano, General André Mahunguane e o Governador de Cabo Delgado, Valigy Tauabo, e depois deslocou-se a Mocímboa da Praia, quartel-general das forças ruandesas na província.
Ainda não é claro se as sanções norte-americanas terão efeitos indirectos sobre Moçambique. Contudo, os estreitos laços entre as Forças de Defesa de Moçambique e as do Ruanda poderão colocar pressão significativa sobre Maputo.
Até ao momento, Moçambique tem sido cauteloso em não tomar partido entre o Ruanda e a RDC.
O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, tem apelado ao diálogo entre as partes em conflito na República Democrática do Congo.
Ler também: Chapo defende diálogo para resolver conflito no Congo
À margem da cimeira de Chefes de Estado da União Africana, realizada em Fevereiro, em Addis Abeba, Chapo manteve um encontro bilateral com o seu homólogo da RDC, Félix Tshisekedi, sem que tal tenha sido interpretado como um enfraquecimento das relações entre Moçambique e o Ruanda.
Falando numa conferência de imprensa no encerramento da cimeira da União Africana, Chapo insistiu que a única via para resolver os vários conflitos armados no continente, incluindo o que opõe o Ruanda à RDC, é o diálogo.
“A nossa posição é sempre a favor do diálogo”, declarou. (MT)















