- O Programa foi a bandeira de governação de Celso Correia e Filipe Nyusi, com investimentos milionários
Por Noémia Mendes
Maputo (MOZTIMES) - Mais de 200 extensionistas do Programa Sustenta amotinaram-se no Parque Central de Nampula, na manhã da última segunda-feira, exigindo o pagamento de salários atrasados há três meses.
O ambiente, carregado de frustração e indignação, ecoava nas vozes de homens e mulheres que há três meses não recebem os seus ordenados e não têm explicação satisfatória do Governo.
O Sustenta foi lançamento em 2019, anunciado por Celso Correia, ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, como a grande aposta do Executivo de Filipe Nyusi para transformar a agricultura familiar em Moçambique. Teve investimentos iniciais de 8 mil milhões de meticais, destinados a apoiar cerca de 2,2 milhões de famílias rurais.
O programa distribuiu motorizadas, insumos agrícolas e realizou treinamentos para melhorar a produtividade e garantir a segurança alimentar. Contudo, para os 213 extensionistas de Nampula, o cenário actual reflecte um outro lado da história.
Entre eles estava Salimo (nome fictício), um homem de olhar cansado mas decidido. “Cumprimos os nossos deveres. Trabalhamos no campo, sob o sol e a chuva, para apoiar as famílias rurais. Mas o nosso direito, que é receber salário, nos é negado. Como é que vamos viver? Como vamos sustentar nossas famílias?”, desabafou.
Não são só os salários que estão em atraso. Marcos (nome fictício), outro extensionista, contou que até meios de trabalho estão a faltar: “As motorizadas que recebemos em 2021 estão paradas por falta de combustível e manutenção. Mesmo assim, exigem resultados. Como é que se trabalha sem recursos? Queremos apenas o que é nosso.”
Os atrasos nos pagamentos tornaram-se uma realidade constante em Nampula. “Sempre que falamos à mídia, o dinheiro aparece. Mas é só isso. Depois, volta tudo ao mesmo. É como viver num ciclo interminável de promessas vazias”, acrescentou Salimo.
Isabel (nome fictício), uma das poucas mulheres entre os manifestantes, destacou o impacto pessoal do atraso nos salários. “Três meses sem salário. Como é que vamos sustentar as nossas famílias? Somos obrigados a deixar as nossas casas e arriscar nossas vidas no campo. Não temos salário, não temos combustível, não temos nada. E ainda esperam que mostremos resultados. Isso é desumano.”
Em Nampula, província que concentra cerca de 20% dos beneficiários do Sustenta, a falta de recursos afecta directamente o alcance do programa. Dos 1.200 extensionistas contratados a nível nacional, os 213 em Nampula relatam que apenas 35% das motorizadas distribuídas continuam em funcionamento, devido à falta de manutenção. Além disso, a ausência de combustível compromete a assistência a milhares de agricultores familiares.
Os protestos não revelam apenas a precariedade enfrentada pelos extensionistas, mas também a fragilidade de um programa que, no papel, prometia transformar a vida das famílias rurais. Enquanto as autoridades provinciais admitem o problema, como o fez Isaac Jamal, delegado provincial do Fundo de Fomento Agrário e Extensão Rural, a explicação não traz alívio para quem depende desse salário.
“Estamos a enfrentar um atraso no pagamento dos salários dos 213 extensionistas devido à libertação tardia de fundos pelo Tesouro Nacional. Já fizemos a nossa parte: elaboramos as folhas de pagamento e enviamos ao Tesouro. Agora, aguardamos,” afirmou Jamal.
No entanto, para os extensionistas, reunidos no Parque Central, essas justificativas não bastam. “Enquanto eles aguardam, nós passamos fome. Nossas famílias sofrem. Não queremos explicações, queremos soluções. O salário é um direito, não um favor!” - concluiu Isabel.
Desde a sua criação o Sustenta já investiu mais de 10 mil milhões de meticais em assistência técnica e insumos agrícolas, mas relatos de má gestão e atrasos na execução ameaçam os seus objectivos de longo prazo. A insatisfação dos extensionistas reflecte um problema estrutural: como sustentar um programa que depende de trabalhadores desmotivados e com recursos insuficientes?
A luta desses profissionais denuncia uma questão mais ampla sobre a gestão dos recursos públicos e o compromisso do Estado com os trabalhadores que estão na linha de frente, que enfrentam desafios diários para apoiar as comunidades mais vulneráveis. Para os extensionistas do Sustenta, a luta por dignidade e respeito continua, mesmo quando o básico lhes é negado. (NM)















